Despensamentos alcoólicos

Despensamentos alcoólicos 

ZinePunk Nº 3 

Nosso cerrado foi transformado em fábricas de hambúrgueres e combustível de automóveis. Pedalando pelo cerrado onde me criei, onde meu pai me apresentou frutos como gabiroba, o murici, gravatá, ticum, ingá, marmelo, mama-cadela, mangaba, buriti e jatobá, e animais como periquito, tamanduá, queixada, quati, capivara, joão de barro, ema, cateto e seriema; hoje vejo uma imensidão de verde, plantas com belos frutos, mais não me engano com essa visão, as plantas que vejo agora foram introduzidas por quem veio de fora.

Foram adulteradas para crescerem soberanas, elas não matam a minha fome e nem dos animais que por aqui ainda erram perdidos. Milho sorgo, soja e cana-de-açúcar, quilômetros e quilômetros de repetição da mesma paisagem só interrompida por alguns trechos de mato em chamas que logo se tornará outra lavoura, outra plantação de progresso de grãos para alimentar animais que não são mais animais, mais matéria prima de carne enlatada e adulterada, proliferadora do câncer entre humanos e animais, ou de um caule que já causou muito sofrimento na época dos engenhos e agora serve para fabricar combustível para transportar o progresso expelindo a fumaça da morte.

Maldito deserto verde é o que vocês do agronegócio fizeram do nosso cerrado. O solo empobrecido pela monocultura, a água contaminada pelo veneno insetos que se proliferam excessivamente em função do desequilíbrio ecológico e os últimos animais do cerrado vagam perdidos pelas últimas ilhas de mata em busca de alimento natural ou fugindo de alguma queimada até que sejam atropelados por algum automóvel na rodovia.
Eu também sou um desse animais vagando perdido atrás do cerrado que um dia tive prazer de viver até ser, a qualquer momento, atropelado pela máquina do progresso.

P.S.: Ainda bem que agora tem MC Donald’s em Rio Verde assim o povo do Sudoeste pode sentir um pouco do sabor que custou a destruição do nosso cerrado.
É uma troca justa não é?

Autor: Eduardo Ferraz Franco - Mestre em Filosofia pela UFG, Punk e Capoeirista.

Extraído por Ana Paula Rossi Martins  a partir do PodCast Filosofia Pop que você pode escutar logo abaixo:


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